6 de fev de 2011

O Capoeirista Manduca da Praia



Ao encerrar a reportagem do jogo da Capoeira no começo do século XIX, traça Melo Moraes o perfil do famoso capoeira Manduca da Praia.
 “O Manduca da Praia era um pardo claro, alto, reforçado, gibento e quando o vimos usava barba crescida em ponta, grisalha e cor de cobre.
 'De chapéu de castor branco ou de palha ao alto da cabeça, de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança.
 'Trajando com decência, nunca dispensava o casaco grosso comprido, grande corrente de ouro que prendia o relógio, sapatos de bico revirado, gravata de cor com anel corrediço, trazendo somente como arma uma bengala fina de cana da Índia.
 'O Manduca tinha uma banca de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e trabalhava com regalo.
 'Constante morador da Cidade Nova, não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco.
 'Destro como uma sombra, foi no curro da rua do Lavradio, canto da do Senado, onde é hoje uma cocheira de andorinhas, que ele iniciou a sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravios sobre os quais saltava, livrando-se.
 'Nas eleições de S. José dava cartas, pintava o diabo com as cédulas.
 'Nos esfaqueamentos e sarilhos próprios do momento ninguém lhe disputava a competência.
 'Um dia, na festa da Penha, o Manduca da Praia bateu-se com tanta vantagem contra um grupo de romeiros armados de pau, que alguns ficaram estendidos e os mais inutilizados na luta.
 'O fato que mais o celebrizou nesta cidade remonta à chegada do deputado Sant’ana, cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de uma força muscular prodigiosa.
 'Sant’ana, que gostava de brigas e não recuava diante de quem quer que fosse, tendo notícia do Manduca, procurou-o.
 'Encontrando-se os dois, houve o desafio, acontecendo àquele saltar aos ares ao primeiro canelo do nosso capoeira, depois do que beberam champanhe ambos e continuaram amigos.”
 É interessante o relato de Manoel Querino no Jornal de Notícias, da cidade de Salvador, na Bahia, do dia 2 de junho de 1914. Em seu depoimento - que tem por título A Cumbuca Eleitoral - o jornalista trata das disputas entre liberais e conservadores e do papel dos capoeiras a soldo dos partidos, na ocasião em que se realizavam as eleições.
 “O capoeira fora sempre figura indispensável nos pleitos eleitorais, fazendo respeitar a opinião de correligionários, provocando a desordem, sempre que se fazia necessário; espancando o adversário e contribuindo desse modo para a formação da Câmara dos Fagundes.”
 Prosseguindo em sua narrativa Manoel Querino descreve o dia do pleito eleitoral: “Chegado que fosse o dia da eleição, estavam as hostes preparadas para a luta, cada partido arregimentava o seu pessoal, composto de votantes, turbulentos, capoeiras e aderentes. Todos a postos, começava a chamada, no campo da matriz da paróquia. Na ocasião aprazada, dava-se um conflito, era o meio de perturbar a eleição. Chamava-se um cidadão para votar; o grupo político que dispunha de maior número de desordeiros, gritava: - É fósforo! - É! - Não é!... E fechava-se o tempo... Gritos, protestos, doestos, uma vozeria ensurdecedora, e, por fim, recorriam ao argumento decisivo - o cacete; e o sangue dos partidários ensopava as lajes do templo, sendo alguma vez interdito pela autoridade diocesana.
 'Aproveitando a confusão do momento, o votante mais sagaz introduzia na urna um maço de chapas. Chamava-se esta ação - emprenhar a urna. De modo que a vitória das urnas estava na razão de quem dispunha dos maiores elementos de desordem, fossem paisanos ou militares.”
 O mesmo sistema que gerava a miséria era o beneficiário da existência das turbulências no contexto social. Fabricava aquele estado de coisas. Vale salientar que quando capoeiras faziam uso da violência indistintamente contra membros de uma sociedade que sobrevivia às custas da escravidão, não se configuravam suas atitudes em gestos gratuitos. A história da humanidade nos ensina que em todas as épocas a violência institucionalizada sempre gerou ainda mais violência.
 Outro nome das nossas letras se distinguiu no uso dos recursos da Capoeira. O escritor Coelho Neto, segundo Francisco Pereira da Silva, era exímio na arte: “Ágil na pena quanto destro na rasteira, duas vezes publicamente se valeu do ensino da capoeiragem recebido nos tempos de rapaz. Josué Montello refere a um destes episódios, precisando a data de 6 de agosto de 1886, quando à noite em meeting de abolicionistas no Teatro Politeama do Rio de Janeiro, discursava Quintino Bocaiúva. A certa altura, capoeiristas a soldo dos escravocratas irrompem das galerias e armam tremendo salseiro. Luzes apagadas, vem Coelho Neto e realiza a incrível proeza de desarmar o chefe do bando, que outro não era senão Benjamim - o mais temível capoeira carioca.”
 De outra feita, o mesmo romancista Coelho Neto, em episódio também narrado por Josué Montello e aqui transcrito de Pereira da Silva, demonstrou seus atributos de destreza e valentia.
 “Na Academia Brasileira de Letras, fizera o tribuno maranhense referência em desfavor de um colega de imortalidade. Dias depois lhe apareceu um filho do suposto ofendido exigindo satisfação. Gravemente desentenderam-se e o jovem, que era atleta, não retardou seu golpe de jiu-jitsu. Instantaneamente e com agilidade felina, partiu Coelho Neto para o rabo de arraia levando o insolente a beijar o pó da calçada e a sumir no oco do mundo...”
 Do capoeira da Bahia, no século passado, traçou Manoel Querino um perfil da sua figura inconfundível, que em muito se assemelhava à do seu contemporâneo capoeira do Rio de Janeiro: “Era um indivíduo desconfiado e sempre prevenido. Andando nos passeios, ao aproximar-se de uma esquina tomava imediatamente a direção do meio da rua; em viagem se uma pessoa fazia o gesto de cortejar a alguém, o capoeira, de súbito, saltava longe, com a intenção de desviar uma agressão, embora imaginária.
 'Eram conhecidos à primeira vista pela atitude singular do corpo, pelo andar arrevesado, pelas calças de boca larga, ou pantalona, cobrindo toda a parte anterior do pé, pela argolinha de ouro na orelha, como insígnia de força e valentia, e o nunca esquecido chapéu à banda.”
 Muitos foram os capoeiras que deixaram seus nomes e feitos inscritos nas páginas dos cronistas da história, deixando evidente a aptidão para feitos de coragem e bravura. João Lyra Filho reconta em Introdução à Sociologia dos Desportos as páginas de Monteiro Lobato acerca do 22 do Marajó.
 “Trata-se de um marinheiro, mestre em desordens, habituado a revirar de pernas para o ar quiosques portugueses; imperava na Saúde, onde suas proezas de capoeira exímio andavam de boca em boca. Tantas fez que o governo o mandou para o Norte, onde foi servir no Alto Amazonas. Ali aclimado, tornou-se rapaz sereno. Com boa pinta, ferrou namoro com a mulher de um ship-chandler, tornando-se seu amante. Mas o trio teve pouca duração; o marido enganado morreu. O marujo casou-se com a viúva, herdeira de bons pacotes, pediu baixa e seguiu para a Europa. No velho mundo, permaneceu dois anos, ao cabo dos quais veio morar no Rio de Janeiro.
 'O marinheiro já era outro; transformado em perfeito cavalheiro, embasbacava a rua do Ouvidor com o apuro dos trajes, as polainas de gala, as luvas de pelica e a cartola café-com-leite. Ninguém sabia quem ele era, embora parecesse um fidalgo. Impávido, petroneando de monóculo, olhava de cima. De hábitos certos, todos os dias passava pelo largo São Francisco, assim como paca pelo carreiro. O logradouro era ponto de encontro preferido por alguns rapazes grã-finos, fortemente despeitados ante a esmagadora elegância do desconhecido. Este passou a ser visto como um rival, sobretudo no jogo lúdico do namoro com as donzelas. Os rapazes decidiram quebrar a proa do novo êmulo. Certa vez em que este passava, mais imponente do que nunca, coincidiu aproximar-se da roda um capoeira ‘mordedor’, que se gabava de ser um mestre em soltas. ‘Solta’ era uma cabeçada desferida no adversário, sem encosto da mão.
 'Veio a hora da ‘mordida’ e com ela a hora da forra. Os rapazes selaram o trato: o capoeira embolsaria cinco mil réis, desde que sapecasse uma solta naquele freguês de monóculo. ‘É pra já’, disse o valentão, já indo ao encontro do rival. Postou-se perto, na calçada por onde caminhava o ‘22’, desperdiçando passos de lorde e esticado dentro do croisô confeccionado em Londres Um, dois, três. Quando o antigo marujo o defrontou, o capoeira avançou e despejou-lhe primorosa cabeçada. Mas o adversário, surpreendido, quebrou o corpo e mandou a cabeçada do agressor beijar a parede. Ao mesmo tempo, com um pé bem manobrado, plantou-o no chão com uma rasteira de placa. O ‘mordedor’ ergueu-se, tonto e confuso, para desabar, novamente, com outra rasteira de estilo. De agressor passara a agredido; desnorteado, deu sebo às canelas e foi amansar o galo da cabeça a cem passos adiante.
 'O Petrônio ficou por ali mesmo, onde estava, dando-se ao conserto do laço da gravata. Mas não perdeu o ímpeto transformado no desprezo dirigido aos rapazes grã-finos e mofinos da roda elegante: ‘- Só uma besta desta dá soltas sem negaça. Já o Cincinato Quebra-Louça dizia que soltas sem negaça só em lampião de esquina; se grampeasse, vá lá. O Trinca-Espinha, o Estrepolia e o Zé da Gamboa admitem soltas neste caso. Mas, assim mesmo, só quando o semovente não é firme de letra.’ E, num giro de bengala entre os dedos, rematou com um suspiro de saudade: ‘- Já gostei desse divertimento. Hoje, minha posição social não me permite cultivá-lo. Mas vejo, com tristeza, que a arte está decaindo.’ E lá se foi, imperturbável e superior, monologando. ‘Soltas sem negaça...Forte besta!’
 'Mas os rapazes não se deram por vencidos. Recuperados após o estupor, uma nova tentativa de desforra cresceu no ânimo deles. A desforra deveria ser contundente. Já então, a surra deveria ser mediante contrato: adjudicaram a empresa ao famoso Dente de Ouro, da Saúde, que haveria de romper o baluarte e quebrar de vez a proa ao estranho figurão. Tudo bem assentado, foram colocar-se no momento aprazado junto ao carreiro, com o rompe-e-rasga à frente. ‘É aquele lá’ - apressaram-se em dizer, assim que ao longe repontou a cartola café-com-leite do sobranceiro lutador. Dente de Ouro avançou para o desconhecido; ao defrontá-lo, entreparou e abriu-se num grande riso palerma: ‘Ei  22! Você por aqui?’ E a resposta: ‘- Cala o bico, moleque, e tome lá para o cigarro. Afasta-te que hoje sou gente; não ando em más companhias.’ E o 22 do Marajó seguiu caminho honesto, depois de meter uma pelega de dez na mão do Dente de Ouro. Este, alisando a nota, voltou ao grupo dos grã-finos. ‘Então?’ - um dos rapazes interrogou-o, desnorteado com o imprevisto desfecho. - ‘Cês tão besta? Aquele é o 22 do Marajó, tem corpo fechado para sardinha e pé que nunca melou saque!’ ”
 Em A Alma Encantada das Ruas, João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, jornalista, romancista, cronista, teatrólogo e contista, autor de Dentro da Noite, A mulher e Os Espelhos, e dos livros de reportagens As Religiões do Rio e Movimento Literário, nascido em 1880 e que veio a falecer em 1921, na crônica Presepes, aborda um grupo carnavalesco formado por negros da Bahia, que tem sua sede na praia Formosa, o Rei de Ouros. Descrevendo suas conversas com Dudú, um dos integrantes do grupo, quanto à composição do Presepes, indagou:
 “- Mas porque, continuo eu curioso, põem vocês junto do rei Baltazar aquele boneco de cacete?
 - Aquele é o rei da capoeiragem. Está perto do rei Baltazar porque deve estar. Rei preto também viu a estrela. Deus não esqueceu a gente. Ora, não sei se V.S. conhece que Baltazar é pai da raça preta. Os negros de Angola quando vieram para a Bahia trouxeram uma dança cungú, em que se ensinava a brigar. Cungú com o tempo virou mandinga e S. Bento.
 - Mas o que tem tudo isso?
 - Isso, gente, são nomes antigos da capoeiragem. Jogar capoeira é o mesmo que jogar mandinga. Rei da capoeiragem tem seu lugar junto de Baltazar. Capoeiragem tem sua religião.
 Abri os olhos pasmados. O negro riu.
 - V.S, não conhece a arte? Hoje está por baixo. Valente de verdade só há mesmo uns dez: João da Sé, Tito da Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manoel Piquira, Ludgero da Praia, Manoel Tolo, Moisés, Mariano da Piedade, Cândido Baianhinho e outros... Esses cabras sabiam jogar mandingas como homens...
 - Então os capoeiras estão nos presepes para acabar com as presepadas.
 - Sim senhor. Capoeiragem é uma arte, cada movimento tem um nome. É mesmo como sorte de jogo. Eu agacho, prendo V.S. pelas pernas e viro: - V.S. virou balão e eu entrei de baixo. Se eu cair virei boi. Se eu lançar uma tesoura eu sou um porco, porque tesoura não se usa mais. Mas posso arrestar-lhe uma tarrafa mestra.
 - Tarrafa?
 - É uma rasteira com força. Ou esperar o dégas de galho, assim duro, com os braços para o ar e se for rapaz da luta, passar-lhe o tronco na queda, ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o baú, pontapé na pança. Ah! V.S. não imagina que porção de nomes tem o jogo. Só rasteira, quando é deitada, chama-se banda, quando com força, tarrafa, quando no ar, para bater na cara do cabra, meia lua...
 - Mas é um jogo bonito!, fiz para contentá-lo.
 - Vai até o auê, salto mortal, que se inventou na Bahia.
 'Para aquela lição intempestiva, já se havia formado um grupo de temperamentos bélicos. Um rapazola falou:
 - E a encruzilhada?
 - É verdade, não disseste nada da encruzilhada?
 'E a discussão cresceu. Parecia que iam brigar...
 'Fora, a chuva jorrava torrencial. Um relógio pôs-se a bater preguiçosamente meia-noite. As mulatinhas cantavam tristes:
  ‘Meu rei de Ouros quem te matou?
  Foi um pobre caçadô’
 'Mas Dudú saltou para o meio da sala. Houve um choque de palmas. E diante do quarto, onde se confundia o mundo em adoração a Deus, o negro cantou acompanhado pelo coro:
  ‘Já deu meia noite
  O sol está pendente
  Um quilo de carne
  Para tanta gente!’
 'Oh! Suave ironia dos malandros! Na baiúca havia alegria, parati, álcool, fantasia, talvez o amor nascido de todas aquelas danças e do insuportável cheiro do éter floral...
 'Não havia, porém, com que comer. Diante de Jesus, que só lhes dera o dia de amanhã, a queixa se desfazia num quase riso. Um quilo de carne para tanta gente!
 'Talvez nem isso! Saí, deixei o último presepe.
 'De longe, a casinhola com as suas iluminações tinha um ar de sonho sob a chuva, um ar de milagre, o milagre da crença, sempre eterna e vivaz, saudando o natal de Deus, através da ingenuidade dos pobres. Como seria bom dar-lhes de comer, ó Deus Poderoso!
 'Como lhes daria eu um farto jantar se, como eles, não tivesse apenas a esperança de amanhã obter um quilo de carne só para mim!”
 

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